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São Paulo não é “PEOPLE”, mas “MULTIDÃO
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Em 2012 assisti uma palestra na Universidade Mackenzie chamada LIVEBLE CITIES FOR THE 21th CENTURY, proferida pelo arquiteto Jan Gehl (Gehl Architects). Anotei em meu caderno de notas algumas observações dele: “Havemos de interagir e nos integrar com a forma construída”. “A escala do pedestre é o que importa”. “Uma cidade ser bonita vista de sobrevoo, não importa, pois ela existe para as pessoas”. “Os arranha céus são uma resposta preguiçosa dos arquitetos à densidade”. Lembro também que ele defendeu com intensidade o uso de bicicletas pelos cidadãos, mostrando exemplos de sua terra natal, Copenhague, capital da Dinamarca, notória por sua qualidade de vida em favor de pedestres e ciclistas. Pensei que aqui é muito diferente, pois vivemos numa cidade quase sete vezes maior que a dele em termos demográficos, então a abordagem para a resolução dos problemas deve ser diferente também. Gehl, assim como a maioria dos arquitetos e urbanistas, venera o chão. Acredito que o chão é tão importante quanto o ar, ainda pouco ocupado.

Compondo a bancada de debatedores da palestra, Regina P. Meyer, professora livre docente da Faculdade de Urbanismo da USP e coordenadora do LUME-FAUUSP (Laboratório de Urbanismo da Metrópole), disse que a cidade “não é só PEOPLE, mas MULTIDÃO”. Deu-nos a entender que devemos pensar nos grandes sistemas de mobilidade e não somente em “bicycles” como propôs Gehl em certo momento de sua palestra. Segundo Regina, o problema dos transportes nas grandes cidades é uma questão de escala.

A palestra de Gehl e os comentários da Regina me fizeram recordar ideias que tive sobre a questão dos transportes de massa há alguns anos, porém não me lembro qual. Também acredito que resolveremos a mobilidade urbana implantando sistemas inovadores de transporte que não funcionem somente como meios deslocadores de pessoas, mas movimentadores , ou seja, infraestruturas móveis que assumam múltiplas funções além de somente levar eu e você para lá e para cá. A experiência de ir e vir não ocorrerá somente através do espaço, mas também no tempo. Sempre teremos nossos afazeres e hoje eles são simultâneos aos nossos deslocamentos: o trem será a estação e a estação será o trem, ou seja, não haverá distinção entre estas funções e tudo ocorrerá ao mesmo tempo. Realizaremos diversas atividades em trânsito.

A adoção de um transporte público de grande escala é urgente nas megalópoles de hoje, principalmente naquelas em que o transporte privado é o dominante, fazendo com que hajam grandes investimentos em infraestruturas viárias para acomodá-lo. Diante disso, imagino veículos (estações) em movimento e velocidade constantes, transportando centenas de passageiros. As transferências (baldeações), serão realizadas entre os diversos veículos (estações), que ao emparelharem-se, permitirão que os passageiros realizem, de forma muito suave e natural, as transições necessárias. Para eles, a percepção de movimento não existirá, pois a escala destes veículos será enorme. Além de meios de transporte, serão espaços onde diversas atividades acontecerão. Imagino-os quadrados e flutuantes para que possam acoplar-se entre si por todos os lados. Não se trata mais de trens, mas de grandes infraestruturas móveis.



Ficha técnica

José Alves, ago/2013

Ilustrações: José Alves