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Concurso Nova Biblioteca
Concurso Público Nacional de Arquitetura para a Adaptação do Edifício da Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo USP, 2013

TELÚRICA E CELESTIAL, ENTRE O LARGO E A SÉ: A NOVA BIBLIOTECA

A Faculdade de Direito da USP no Largo de São Francisco e a Catedral da Sé são marcos fundamentais da cidade. Portanto, a ideia de uma nova biblioteca entre eles é simbólica: o peso do conhecimento através dos livros e a leveza da alma para aqueles que os leem. Já que seus arredores são dotados de completa infraestrutura urbana, a criação de uma nova biblioteca através da renovação de um edifício anexo da Faculdade será um caso notável.

A melhor maneira de conservar a memória de um edifício é dar-lhe um uso atual através da realização de algumas intervenções para que abrigue as novas funções. Atualizar e renovar um edifício é como fazê-lo reviver. O edifício atual não comporta as exigências do momento presente, a importância do acervo que vai abrigar, o fluxo de pessoas que vão circular por lá, o tipo de uso que os usuários e funcionários vão necessitar. Uma intervenção contemporânea é necessária, com um programa adequado aos modos de vida atual: além de biblioteca, café, loja, auditório, espaços multiuso e multimídia, teremos novos sistemas de circulações e acessibilidade. Para que todas estas demandas contemporâneas sejam atendidas plenamente, a renovação da infraestrutura do edifício é a intervenção protagonista, o lastro de todas as atividades que lá irão acontecer.

OPERAÇÃO URBANA

O edifício da Nova Biblioteca está inserido na área da Operação Urbana Centro que prevê que não serão computadas, para efeito do cálculo do coeficiente de aproveitamento, áreas destinadas à educação e cultura em geral, assim como áreas de pavimentos destinadas à fruição pública, como circulação de pedestres, localizadas no pavimento térreo ou em pavimentos correspondentes à soleira de ingresso da edificação no nível dos logradouros públicos.

De acordo com os técnicos da Prefeitura da SP Urbanismo – Operação Urbana Centro, a orientação é que no caso de um edifício de biblioteca não sejam computadas as áreas de acervo e fruição pública e computadas as áreas destinadas à administração, circulações e demais usos.

Para efeito de cálculo, consideramos áreas computáveis em nosso projeto as circulações, sanitários, café/eventos, área administrativa do balcão de atendimento e serviços de referência e áreas administrativas em geral. As demais áreas, que são as relativas ao acervo, áreas de leitura, espaços multiuso, sala multimídia, auditório e térreo não foram computadas. Desse modo, chegamos ao seguinte quadro:
Área do terreno: 380,50 m2
CA: 4
Área computável permitida: 1.522 m2
Área computável projeto: 1.440m2
Área não-computável projeto: 2.070m2
Área total projeto: 3.510 m2

O projeto da Nova Biblioteca deverá ser aprovado por uma comissão da Operação Urbana. Há a possibilidade de ser revista a forma de calcular as áreas computáveis e não-computáveis de acordo com o parecer desta comissão, assim como o coeficiente de aproveitamento, aumentando o ganho de área da biblioteca e consequentemente a possibilidade de sua ampliação. Resolvemos adotar o pior caso por ser o mais realista. Dessa maneira, a infra-estrutura do edifício foi projetada visando um horizonte de 50 anos, mas, devido às limitações espaciais, o acervo tem uma capacidade de expansão calculada em 10 anos. Fizemos um projeto flexível com possibilidade de expansão vertical do volume metálico sobre o terraço. Sendo assim, conforme as tratativas com a Comissão de Aprovação se desenrolarem e uma nova orientação for dada à respeito do cálculo das áreas não computáveis e coeficiente de aproveitamento, podemos crescer verticalmente o edifício a fim de comportar uma previsão aumento do número de livros em um horizonte de 50 anos.

FUNCIONAMENTO

Foram criadas 4 zonas funcionais bem definidas.

Zona 1 – setor relacionado aos espaços de maior concentração de pessoas. Compreende do subsolo até o primeiro pavimento. Programa: auditório no subsolo, térreo com saguão público, loja e balcão de recepção, cadastro e guarda-volumes, mezanino com café e primeiro pavimento com espaços multiuso e sala multimídia.

Zona 2 – setor relacionado ao acervo espaços de leitura e salas de estudos. Compreende do segundo ao sétimo pavimento. Programa: biblioteca circulante e especializadas.

Zona 3 – setor relacionado ao atendimento ao público. Compreende do oitavo ao nono pavimento. Programa: balcão de atendimento, serviços de referência, sala de leitura e terraço aberto com vista para a cidade.

Zona 4 – setor de gerenciamento técnico e administrativo. Compreende do décimo ao décimo primeiro pavimento. Programa: chefia técnica, serviços técnico, reserva técnica e sala de quarentena.

As Zonas 2 e 3 (exceto o nono pavimento) são interligadas internamente por escadas abertas que percorrem o grande vazio criado na porção frontal do edifício. Após o usuário utilizar o balcão de atendimento e os serviços de referência, ele terá a possibilidade de percorrer a biblioteca confortavelmente descendo as escadas. A ideia de colocar nos andares superiores estes serviços, que são fundamentais por fazerem a interface direta com os usuários, surgiu da premissa de que, além de serem a inteligência da biblioteca, incentiva a circulação aberta e franca dos usuários entre estes pavimentos, o que será fundamental para a convivência entre todos.

Quanto aos serviços de copa e vestiários de funcionários, decidimos utilizar parte dos dois andares disponibilizados do Edifício Claudio Lembo para alojar este programa. Á área restante poderemos usar para depósitos, almoxarifados, manutenção e escritórios.

INFRAESTRUTURA E CONFORTO AMBIENTAL

Um dos desafios é renovar e atualizar tecnologicamente um edifício hoje obsoleto dentro de suas limitações físicas. Para isso, adotamos os seguintes critérios:
1. Criação de um novo núcleo de circulações, sanitários e infraestrura, com shafts e salas técnicas;
2. Por ser uma das partes que mais consomem energia em um edifício, o sistema de ar condicionado receberá atenção especial no sentido de adotarmos sistemas independentes para atender a setores diferenciados do edifício;
3. Devido às restrições espaciais, colocação da área técnica com os equipamentos e reservatórios superiores na cobertura do edifício;
4. Criação de um novo sistema de instalações moderno, flexível e de fácil manutenção (trocas, substituições e adições);
5. Mesmo o edifício sendo projetado para ser flexível, determinamos áreas específicas para cada setor de uso, direcionando com racionalidade as instalações demandadas por cada zona criada;
6. A fim de fornecer maior flexibilidade para remanejamentos futuros, o sistema gerado não possui restrições de infraestrutura. Cada canto do edifício está apto a receber o máximo potencial de instalações de acordo com a demanda, além de permitir a total liberdade de ocupação no âmbito do layout;
7. Para o conforto termoacústico da biblioteca adotamos caixilhos acústicos nas fachadas (a Rua Senador Feijó é ruidosa) e para o conforto térmico, além do sistema de climatização, adotamos uma membrana externa solta 50 cm da fachada nordeste com a função de brise, atenuando a incidência solar no interior do edifício e refrescando passivamente os caixilhos pela passagem dos ventos entre as camadas de fechamentos. Além disso, o vazio frontal criado fornece um refrescamento também passivo, pois haverá a alternativa de passagem do ar por efeito chaminé através do piso de vidro inferior e superior (claraboia) por partes que se abrem manualmente, como janelas.

ESTRUTURA

Alguns cortes nas lajes existentes e reforços estruturais estão previstos no projeto para que ele se adapte às condições pretendidas. Portanto, após uma avaliação das condições atuais da estrutura as decisões específicas para cada ponto serão tomadas. Mas de antemão, cortes e reforços estruturais são possíveis. Quanto às lajes, precisaremos avaliar qual o tipo dela: se maciça, dependendo da direção das armaduras, pode ser recomendado cortar em uma determinada direção. Se laje com vigotas tipo pré-fabricadas, precisamos cortar paralelamente à laje. Tudo dependerá do resultado das prospecções e laudos realizados pelo engenheiro calculista do projeto. As posições dos cortes nas lajes vão variar, no projeto já previmos os reforços estruturais com perfis metálicos.

Todos os pilares serão mantidos. Todas as vigas existentes serão mantidas, exceto na zona do novo núcleo de circulações de escadas e elevadores, shafts e sanitários. Lá realizamos a remoção de todo o trecho junto às escadas e elevadores originais, substituindo-o por uma nova estrutura que, além de abrigar o programa citado acima, será um dos responsáveis pela estruturação do volume superior novo em estrutura metálica que abrigará a zona administrativa da nova biblioteca.

Já na porção frontal, onde criamos um grande atrium através da remoção parcial da laje, previmos reforço estrutural com novas vigas e pilares metálicos que, além de possibilitar que este vazio exista, providenciará a estruturação do volume superior.

Quanto ao vazio central existente, previmos a construção de uma nova laje metálica em todos os pavimentos (exceto no primeiro), dando continuidade as duas bandas do edifício, unificando e integrando os espaços. Neste lugar teremos o monta-carga e um pilar metálico junto a uma das quinas do vazio original que será responsável pela estruturação do volume metálico superior citado anteriormente.

No térreo realizamos um corte em um trecho da laje para inserirmos o auditório, cujo acesso é realizado pelo térreo e pelo subsolo. A estruturação deste espaço é realizada através de estrutura metálica, inclusive parte de sua cobertura que é uma escadaria /arquibancada que conecta o térreo ao mezanino, onde teremos um café. Este espaço é novo e será estruturado com perfis metálicos que serão ancorados aos pilares existentes.

ESCAVAÇÕES

Realizamos escavações em dois lugares: no fundo do lote, criando um jardim voltado para o foyer do auditório, e dentro do auditório para que as condições de visibilidade da plateia seja adequada, tanto para uma conferência quanto para um pequeno cinema.

Ficha técnica

Arquitetura: José Alves + Juliana Corradini

Equipe:
Camila Nogueira

Consultores:
Estrutura - Fernando Gomez