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Palimpsesto Urbano
http://www.engenhariaearquitetura.com.br/blog/multiurb/?p=76

Raspar para dar lugar a outro? Riscar de novo? Reutilizar? Recuperar? Perder?

As cidades lidam com estas questões que são as mesmas dos palimpsestos, pergaminhos ou papiros cujos textos foram eliminados para permitir a reutilização da matriz. Neste processo de reciclagem, muitas informações perderam-se para dar lugar ao novo. Entretanto, dentro desta maneira de agir, existem possibilidades urbanas mais avançadas e menos perdulárias, envolvendo, por mais estranho que isso possa parecer agora, o Elevado Costa e Silva, o Minhocão.

Trata-se do mais famoso viaduto de São Paulo, “cicatriz” que deteriora há 40 anos suas adjacências, resultando numa fratura urbana que avilta o tecido da cidade para além dos seus limites físicos. Ao ser construído, negou aos cidadãos o “chão”, tão venerado pelos velhos (e jovens) urbanistas. Mas as cidades, além de telúricas, estão se tornando “céu”, e isso é uma boa notícia: Marte é aqui também.

No projeto O Novo Elevado*, a noção de limite imposta fisicamente pela presença do viaduto é dissolvida. Nesta intervenção urbana, um novo piso é acoplado sobre a estrutura do viaduto, configurando-se em um parque elevado com múltiplos usos e funções. Mesmo apoiando-se sobre uma superfície rígida que impõe limites muito claros, o projeto O Novo Elevado, tal como a água, espalha-se além dos seus limites, ocupando espaços e camadas de modo bruto, mas ao mesmo tempo gentil. Assim como os rios transbordam, O Novo Elevado também o faz.

Podemos exemplificar isso realizando um exercício: aos domingos, o Minhocão se fecha para os carros, tornando-se um espaço de lazer para a população. Coloquem-se imaginariamente em qualquer ponto dele e façam um movimento com os braços, cortando todos os edifícios ao redor, além daqueles que você não está vendo, atrás destes. Tracem um plano imaginário, esvaziando, pelo menos, dois andares acima. Pronto, agora poderão ver além, como um hiato de luz. Estas lacunas, zonas que denomino como Fendas Públicas são, neste caso, intervalos horizontais, heterogêneos quanto aos seus programas de usos: tudo pode acontecer nestes Extra Espaços.

Assim como as cidades caminham para uma espécie de compressão vertical que compreende uma superdensificação, estas Fendas Públicas propostas pelo projeto O Novo Elevado são como arranha-céus “deitados”: uma necessária pausa, um contraponto.

*projeto vencedor do Prêmio Prestes Maia de Urbanismo e da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em 2006 e 2007 respectivamente.

Ficha técnica

José Alves, ago/2012

Ilustrações: José Alves