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Corrompendo Brasília
http://www.engenhariaearquitetura.com.br/blog/multiurb/?p=64

Este ano, pela primeira vez, visitei Brasília, cidade que exerceu sobre mim muita influência na decisão de tornar-me arquiteto. Desejo que não surgiu nas vésperas do vestibular, mas na minha adolescência. Graduei-me arquiteto e desde então sentia um leve desconforto e timidez por nunca ter estado lá. De vez em quando imaginava vozes que me censuravam dizendo: Como pode um arquiteto não conhecer Brasília? Ainda mais você, que foi arrebatado desde a infância por imagens de sua mítica arquitetura. Inadmissível!

Estando lá, entendi muitas coisas que só quem usufrui da cidade é capaz de compreender. Uma coisa é ouvir a experiência dos outros e outra é ter, após visitá-la, o seu próprio ponto de vista, mesmo que seja muito parecido com a opinião usual de turistas ou residentes. Para conhecê-la de forma gradual, escolhi caminhar ao invés de alugar um carro (o que farei da próxima vez) e aos poucos senti as dificuldades de ser um pedestre naquela planície escaldante e vazia, situação agravada pelo fato dos espelhos d´água dos maravilhosos edifícios projetados por Oscar Niemeyer não serem oásis refrescantes mas uma releitura dos fossos medievais, impedindo elegantemente a aproximação. Apesar de toda a hipocrisia envolvendo os espelhos, prefiro o cinismo de sua adoção ao despudor dos gradis. Voltando à questão do ato de andar, para aliviar um pouco, utilizei também transporte público como ônibus e metrô e, em duas ocasiões necessárias, taxi.

No início fiquei muito emocionado por estar dentro de todo aquele arcabouço urbanístico e arquitetônico monumental. Contudo, no decorrer dos dias, à medida que ficava nervoso, entediado e cansado dele, um sentimento de felicidade ocupou minha mente: iniciava-se um processo libertador de desmistificação de Brasília. A experiência de sua realização foi algo sem precedentes na história do urbanismo mundial, mas suficiente. O texto explicativo do projeto vencedor do Concurso para o Plano Piloto da Nova Capital, escrito em 1957 pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa, idealizador de Brasília, revela sua mentalidade aparentemente avançada, porém, elitista e anacrônica. Como a cidade foi construída assim como concebida, envelheceu muito rápido.

Andando pela cidade e conhecendo-a, mais e mais dei-me conta e convenci-me de que ela foi construída exatamente de acordo com o desejo de seu criador nos mínimos detalhes, fato que facilita muito uma percepção crítica do Plano Piloto, pois não é possível haver desculpas do tipo: “ah, aqui não respeitaram o projeto urbanístico original”. Percebi também que ela ficará para sempre congelada no tempo e que não será possível manipulá-la e transformá-la: além de tombada, é a capital do país, com todo o seu consuetudinarismo inveterado. Entretanto, na imaginação tudo é possível, inclusive aviltá-la, corrompê-la, coisa que fiz durante meus passeios através dela e continuo fazendo para treinar minhas percepções.

Intriga-me o fato do Plano Piloto da Nova Capital manter-se congelado no tempo, este experimento extraordinário, vigoroso, belo, imperfeito e desastroso em alguns momentos. Por isso creio em futuras transformações advindas dos seus habitantes junto a um leque multidisciplinar de especialistas, arquitetos e urbanistas, num movimento inverso ao ato de sua criação no século passado, há cinquenta e quatro anos: não será um gesto único daquele que sobrevoa um lugar e impõem que aqui será isso e ali aquilo, mas de quem está em situação, trocando experiências, dividindo idéias e lutando por elas.

Outras cidades utilizarão a experiência de Brasília para transformar-se, mas no caso dela, as novas idéias não destruirão o seu legado. Pelo contrário, seus edifícios e vias permanecerão intactos, vistosos e admiráveis dentro de sua própria redoma construída com base na tradição. Paradoxalmente, para os futuros arquitetos e urbanistas, parecerão cada vez mais tépidos e pálidos, até sumirem para dar lugar a uma mentalidade menos rígida e mais promíscua.

Ficha técnica

José Alves, dez/2011

Ilustração: José Alves