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Sobra é Obra
http://www.engenhariaearquitetura.com.br/blog/multiurb/?p=35

É muito comum associarmos Retrofit à modernização de fachadas de edifícios. Mas ele não se resume só a isso, pois mesmo quando aplicado na modalidade denominada Retrofit Predial, aquela realizada em edifícios isolados, pode prescindir desta modernização para configurar-se, ou seja, por trás da renovação das fachadas dos prédios há outras ações fundamentais integradas entre si que são um importantíssimo traço do Retrofit: a realização de adaptações e atualizações das instalações e equipamentos prediais através da incorporação de modernas tecnologias dos materiais, fundamentais para o aumento da vida útil do imóvel e, por conseguinte, do seu valor.

O aspecto externo de um edifício que passou por um Retrofit é muito importante para a sua valorização à primeira vista, mas sua vida útil depende da renovação de suas entranhas. Quando a renovação da fachada não é somente estética, mas integrada às ações realizadas no seu interior tanto no âmbito do uso do edifício (anexação de varandas ou qualquer outro tipo de “plug” no corpo do edifício) quanto no da sustentabilidade (fachadas “verdes”, aplicação de vedos eco-eficientes, mudança das dimensões das janelas de acordo com a orientação solar e direção dos ventos), o Retrofit se torna total.

Esta renovação dos edifícios ligada à eficiência energética, requalificação tecnológica, reconfiguração e otimização espacial, readequação para o mesmo uso ou adaptado para usos diferentes, é uma ação extremamente inovadora que deverá ser cada vez mais adotada nos grandes centros urbanos, tornando as cidades mais sustentáveis. Através do Retrofit, investimos no problema do consumo exagerado de água e energia, apostando no reuso da água das chuvas, na ventilação natural do edifício e no incremento da incidência de luz natural no seu interior.

Por trás do Retrofit está a idéia do aumento das potencialidades das cidades. A pujança de quem destrói para construir esta sendo substituída pela sagacidade daqueles que vêm “Obra” na “sobra”. A palavra sobra, neste caso, diz respeito aos edifícios abandonados, desvalorizados, esquecidos e que possuem um potencial de transformação notável. O advento de um novo urbanismo deverá estar também baseado na reciclagem da cidade no âmbito de sua reutilização e resignificação, agregando a ela novos conceitos e valores.

Além disso, com o aumento das populações nos centros urbanos, haverá a necessidade cada vez maior de “comprimirmos” as cidades, adensando-as. Vivemos uma era de colapso das infraestruturas e este inevitável aumento populacional agrava esta situação. O Retrofit destas infraestruturas, além de gerar espaços inéditos de coexistência, fará a integração tão esperada entre a cidade e seu povo.

Estamos falando de uma mudança cujas ações requerem abordagens dentro de parâmetros não convencionais. É preciso mudar a mentalidade, investir em novas idéias e executá-las sabendo que o rápido ritmo de crescimento das cidades não espera mais as formas tradicionais de planejamento urbano. Entretanto, para que as ações de Retrofit, dentro de seu círculo de modalidades, atinjam suas potencialidades máximas, não bastam idéias inovadoras e o uso da mais alta tecnologia. É essencial que as leis de uso e ocupação do solo também acompanhem estas inovações para que tenhamos flexibilidade de manipulação das formas urbanas, gerando uma “outra” matriz espacial, totalmente diferente desta que já nos acostumamos, mas sobre a qual estou certo de que ainda não estamos soltos. Creio que a nossa dimensão é bem maior e precisa de espaços e lugares fora do comum, onde possamos atingir a nossa verdadeira desenvoltura.

Ficha técnica

José Alves, jul/2011

Ilustração: José Alves