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Largos do Pelourinho
Concurso Nacional de idéias para elaboração dos projetos de requalificação dos Largos Pedro Arcanjo, Teresa Batista e Quincas Berro D’Água, localizados no Centro Histórico de Salvador, 2012

Largos de Pelourinho-Identidade Cultural e Diversidade

"...tudo já terá se misturado por completo e o que hoje é mistério e luta de gente pobre, roda de negros e mestiços, música proibida, dança ilegal, candomblé, samba, capoeira, tudo isso será festa do povo brasileiro, música, balé, nossa cor, nosso riso, compreende?"

Pedro Archanjo em “Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado, 1969

Garantir a “Diversidade enquanto possibilidade de novos encontros”, de acordo com as diretrizes do Concurso, foi a premissa geradora de nossa proposta e a diretriz maior que prevaleceu na concepção dos espaços.

A partir daí, as demais questões fundamentais estabeleceram-se com naturalidade em nossa proposta, sendo a integração com a imagem e volumetria do entorno formado pelo casario histórico e a possibilidade desses espaços descortinarem visuais do Pelourinho, os nossos principais desafios.

Utilizando estruturas com racionalidade construtiva, robustez e grande durabilidade, compatíveis e apropriadas ao espaço público de atuação da proposta e que, além disso, demonstrem a contemporaneidade da intervenção, facilidade de execução e que interfira o mínimo possível no conjunto edificado adjacente, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, concebemos uma intervenção adequada para realização de diversas atividades culturais, como shows de música, teatro, dança e exposições de artes.

Adotamos nos três Largos as normas de acessibilidade universal, integrando os espaços internos e melhorando a relação com o casario que delimita os Largos e com as demais edificações adjacentes que compõem o Centro Histórico, instituindo alternativas de apropriação por moradores e visitantes, mesmo onde há o controle do acesso de algumas áreas destinadas aos estabelecimentos privados, como bares e restaurantes.

Para garantir o conforto ambiental e minimizar o impacto térmico e acústico sobre a população que irá utilizar esses espaços, tanto a flutuante quanto a que vive e trabalha nos arredores, acoplamos sob as coberturas elementos acústicos constituídos de painéis dispostos com inclinações adequadas para uma absorção sonora eficaz. Sobre a cobertura e acima dos caixilhos de vidro refletivo incolor, acoplamos um sistema de brises metálicos que deslizam sobre trilhos a fim de sombrear os espaços conforme a posição do sol.

Coberturas

Nas intervenções dos Largos, as coberturas são o elemento de maior impacto visual. Para que as pessoas se sintam dentro do Centro Histórico de Salvador e se apropriem visualmente do casario do entorno, adotamos o partido de elevar estas coberturas de forma que fiquem ajustadas numa cota de nível que não ultrapassasse cumeeira dos telhados. Além disso, padronizamos os sistemas construtivos, adaptando-os a cada situação no que diz respeito aos apoios e morfologia, revertendo a situação de caos atual, onde as coberturas e toldos precários impedem as pessoas de apreenderem o espaço na sua totalidade.

Fundamental para o conforto dos usuários, protegendo-os do sol e da chuva, elas foram projetadas para serem infra-estruturas com recursos que atendam as necessidades técnicas, termoacústicas, cenográficas, audiovisuais e de iluminação em eventos diversos como uma peça de teatro, uma apresentação de dança ou um show de música. Para tanto, assumem a função de uma "caixa de ferramentas" (toolbox) com o acoplamento de pontes rolantes que penduram urdimentos constituídos de varas de iluminação, monitores e alto-falantes através de guinchos de cabo motorizado. A montagem dos eventos fará parte do show e estará exposta ao público e não mais no backstage. A arquitetura torna-se uma espécie de teatro público, onde o espaço ao ar livre poderá ser transformado, criando-se um “chão” multifuncional e flexível, de configurações diversas. Quando recolhidos todos os aparatos cênicos, os largos tornam-se praças abertas.

Desempenho Acústico

Sob as coberturas, aplicamos painéis acústicos constituídos de lã mineral com espessura de 50mm revestida chapa metálica perfurada transparente aos sons assim como atenuadores de ruído constituídos por lâminas de chapa perfurada e lã mineral com espessura de 150mm. Com esse tratamento, será atenuada a transmissão para o exterior.

Desempenho Térmico

A aplicação de lã mineral proposta para produzir uma redução do ruído interno acarretará em uma queda no valor da condutância térmica global da cobertura. Com isso, os ganhos de calor devidos à insolação ficarão reduzidos.

Além disso, acoplamos sobre as coberturas um sistema de brises metálicos móveis, promovendo um sombreamento extensivo dos espaços.

Iluminação

Nas coberturas serão instalados projetores embutidos no forro acústico de chapa metálica micro-perfurada e lã mineral dotados de lâmpadas de multi-vapores metálicos que produzirão uma luz “branca” e que apresentem excelência em termos de reprodução de cor, mais adequada para acolher os usuários. Essa iluminação vai trabalhar em conjunto com a iluminação cênica do casario existente, valorizando os espaços dos Largos.

Nas áreas fechadas adotamos lâmpadas fluorescentes dispostas de forma a fornecerem luz indireta, possibilitando às pessoas tanto no seu interior como na rua, não verem pontos de luz isolados no teto, gerando uma iluminação uniforme ao longo dos espaços. Sob trilhos, teremos projetores dispostos de forma direcionada com a luz projetada sobre os painéis de exposição numa distância adequada e com características específicas conforme a situação: uma exposição artística, anúncios de propaganda, projeções de vídeos e multimedia, grafites, workshops etc.

Palcos

Adotamos palcos leves, flexíveis e portáteis com os fundos removíveis para que fosse permitida a visualização do casario ao fundo caso seja possível prescindirmos deste acessório como em apresentações com platéias em toda a volta do palco. No caso do Tereza Batista, principal largo para os shows e cuja diretriz é prover o espaço com um palco fixo com toda a estrutura de apoio, também adotamos um palco leve e de fácil montagem caso seja necessário removê-lo ou deslocá-lo em situações específicas. Deve-se lembrar que a presença da ponte rolante facilita a sua manipulação.

Camarins e apoio logístico aos eventos

Além da possibilidade de utilização de espaços adjacentes (quando passíveis de uso), para abrigar camarins, guarda e conservação de todo o arsenal de equipamentos necessários à produção de espetáculos, mesmo de baixo e médio impacto sonoro, incorporamos aos núcleos de circulações verticais dos Largos Pedro Arcanjo e Tereza Batista uma infra-estrutura de apoio para estes fins. A estrutura destas torres será envolvida por uma malha de aço que criará um efeito cenográfico de véu tanto de dia quanto à noite, transformando-se, junto com as coberturas, num elemento marcante da intervenção.

No caso do Largo Pedro Archanjo, para os camarins, novos sanitários e apoio às produções adotaremos parte do salão gerado pela incorporação de um novo deque metálico acima do piso intermediário de chegada da escada que conduz aos estacionamentos. Este piso será o novo Mirante deste Largo.

Galerias de acesso aos Largos

Para marcar visualmente os acessos dos Largos criamos entradas bem sinalizadas. No caso dos Largos Tereza Batista e Quincas Berro d’Água estes acessos são oportunos espaços gerados pela situação muito particular de cada um deles.

O acesso atual do Largo Quincas Berro d’Água é feito através de um largo corredor entre as empenas cegas das casas existentes. Aproveitando este agradável lugar que hoje uma transição ao ar livre até chegarmos ao espaço do Largo propriamente dito, inserimos entre as empenas um volume prismático de alto pé direito que, além de marcar o acesso de forma intrigante, exerce a função de galeria de entrada que contém caixas automáticos, telefones públicos, espaços expositivos e de informações à população local e aos turistas.

O acesso ao Largo Tereza Batista assumiu uma feição também muito particular. Para transpor o desnível entre a cota da rua e o piso principal do Largo, instalamos uma nova escada, mais larga do que a existente e que vence este desnível diretamente. O patamar intermediário foi abolido para dar lugar a um novo piso de estrutura metálica que realiza a continuidade com o piso principal do Largo. Esta plataforma, além de ser uma varanda para a Rua Gregório de Matos, é a cobertura de uma galeria de acesso gerada oportunamente aproveitando os desníveis originais. Este espaço, assim como no Largo Quincas Berro d’Água, abrigará caixas eletrônicos, será um saguão de exposições e continuará tendo a função de acesso restrito ao reservatório inferior. Uma torre de elevador cria acesso universal ao Largo. Esta torre, juntamente com o novo acesso embutido entre os muros de pedra, dão um novo caráter à entrada deste Largo.

Pisos

Todos os pisos deverão ser refeitos privilegiando a acessibilidade universal, segurança, limpeza, manutenção e drenagem.

Vestígios arquitetônicos relevantes

Para este item tomaremos como exemplo a empena de telha da parede lateral do Sesc voltada para a Rua Gregório de Matos no Largo Tereza Batista, elemento muito importante arquitetonicamente e que apropriamos na nossa intervenção propondo a sua restauração e valorização através de iluminação cenográfica. Outros marcos dos outros Largos, como por exemplo os muros de pedra do Quincas, receberão a mesma importância.

Saídas de emergência

Para as saídas de emergência do Largo Tereza Batista adotamos o local onde há os sanitários químicos e onde hoje é a Secretaria de Turismo, que poderá ser aberto para este fim. Para o Largo Quincas Berro d’Água propusemos a saída pela rua Leovegildo de Carvalho onde hoje já existe uma porta. Esta região do Largo pertence à ruína adquirida pelo restaurante UáUá sendo portanto um espaço semipúblico do Largo e de acesso controlado, portanto passível de negociação para este fim. Para o Largo Pedro Archanjo adotamos como saída a passagem existente que conecta o Largo à Rua das Laranjeiras. Outros pontos poderão ser sugeridos no decorrer do desenvolvimento do projeto.

Drenagem

O escoamento das águas pluviais captadas das coberturas será direcionado à rede existente que deverá ser revista para dar vazão adequada. Para incrementar a performance de escoamento das águas, substituiremos os pisos existentes por pisos adequados à cada situação, dando prioridade a adoção de pisos drenantes a serem instalados na borda das edificações existentes, aliviando a parte central dos pisos, com os caimentos adequados.

Demolições

A palavra demolição pode soar inadequada numa intervenção que envolve o Patrimônio Histórico. Então é preferível chamarmos as pequenas remoções de subtrações e incisões “cirúrgicas” criteriosas. Realizamos pequenas retificações do espaço existente basicamente para adequar os Largos às normas de acessibilidade universal. Para todos os Largos, foi adotada a remoção de todas as coberturas, toldos e palcos.

No Largo Tereza Batista removemos, na cota de acesso, o caixa automático do Bradesco, que foi relocado, a escada e as floreiras nas suas laterais. Na cota principal removemos os camarins, o palco existente e a escadaria de dois degraus que divide este nível com um logo abaixo e que dá acesso aos sanitários à frente da empena de telhas do Sesc. Isto possibilitou um encaixe perfeito do novo piso metálico com a torre de elevadores e a nova escada, dando grande amplitude ao espaço. Este piso terá uma escada que dá acesso aos sanitários e uma plataforma hidráulica com o mesmo fim (devido à impossibilidade de alocarmos uma rampa pela falta de espaço). Na cota principal, numa das pontas inserimos uma rampa que acessa o Bar Destaque e para acessar o nível onde hoje se encontram os sanitários químicos, substituímos a rampa existente, ao lado da mureta, por uma nova. Ao seu lado, uma escada e em frente a ela, uma rampa que vence o desnível entre a cota do Museu da Enfermagem e a cota dos sanitários químicos, junto ao volume de pedra onde existem também sanitários. Removemos um sóculo de pedra que bordeia este espaço para que o acesso seja feito sem barreiras.

No Largo Pedro Archanjo, corrigimos a inclinação do piso da entrada principal resultando numa inclinação de 2%. Substituímos a escada de acesso à garagem por uma torre de escadas e elevador que acessibiliza tanto o novo piso criado em um nível um pouco acima do nível principal do Largo, exatamente na cota da floreira mais alta, quanto o do quintal que nos conduz aos atuais camarins. As floreiras da cota intermediárias foram removidas para que o novo espaço criado de aço e vidro se revelasse por inteiro. Para dar acesso à saída para a Rua das Laranjeiras colocamos uma rampa e ao lado dela uma escada mais adequada e para acessarmos o restaurante da Fafá ao lado deste acesso para a Rua das Laranjeiras, uma nova rampa.

No largo Quincas Berro removemos, na cota de acesso, o caixa automático do Itaú, que foi relocado. Mais à frente, inserimos uma rampa atrás do marco de sanitários. Retiramos o círculo de concreto, a rampa e escada ao seu lado e o substituímos por uma nova escada e um banco, promovendo continuidade ao espaço. Para dar acesso ao espaço ao lado do Ateliê Chico Vieira, inserimos rampas. Para promovermos a acessibilidade universal para todos os níveis deste Largo, instalamos ao lado do muro de pedra um conjunto de rampas que se inicis no nível principal do Largo até atingir as ruínas do restaurante UáUá. No fundo do Largo, dando para a Rua Leovegildo de Carvalho, inserimos uma rampa e alargamos a porta de saída para a rua, dando a possibilidade de termos uma saída de emergência neste ponto. Para colocarmos este conjunto de rampas, removemos as escadarias existentes destes pátios rebaixados ao lado do muro de pedra. Para acessarmos os pátios escalonados referentes aos imóveis Art Brasil (onde colocaremos os sanitários e o apoio) e ao imóvel Phitomed, inserimos, além das rampas já citadas, uma plataforma hidráulica. E para completar, para acessarmos o piso rebaixado do Imóvel Gerson Jóias, também uma plataforma hidráulica

Conclusão

Aliado ao Patrimônio Cultural construído e promovendo uma íntegra apropriação espacial, configuramos espaços abertos para serem manipulados e recriados continuamente, onde a inserção de equipamentos e mobiliários móveis é possibilitada e incentivada pela infra-estrutura criada, instituindo uma espontaneidade de usos dos espaços, um desenho “aberto” a ser permanentemente “completado”, abrigando as transformações cotidianas.

O diálogo entre o antigo e o novo cria uma tensão franca que valoriza ambos e as honestas coberturas que pairam sobre o casario histórico, sem pesar sobre eles, cria um vazio entre os dois, uma lacuna, que nos remete ao tempo e à memória dos lugares.

"Impossível não há"

Quincas Berro d’Água em “A morte e a morte de Quincas Berro d’Água” de Jorge Amado, 1959

MEMORIAL ESTRUTURAL

Em todas as soluções propostas o principal objetivo foi sempre interferir ao mínimo no espaço existente. A opção por um material moderno: o aço, deve-se, além de suas qualidades estruturais, tais como menor peso, facilidade de execução, menores dimensões, evitando interferência visuais marcantes, é também participar da história, da história futura, marcando a intervenção de uma época.

O uso do aço numa atmosfera marinha, como a de Salvador, poderia ser precipitadamente criticado, mas hoje temos aço patináveis, com grande resistência a corrosão, assim como revestimentos através de tintas com grande poder de proteção, com custos muito acessíveis. Essa opção é uma maneira de mostrar aos visitantes, principalmente estrangeiros, o desenvolvimento de nossa indústria, particularmente a indústria siderúrgica.

Como já é demais sabido não se pode conceber uma arquitetura sem que a concepção estrutural ocorra concomitantemente. Por isso é fácil notar nas soluções propostas para as diversas intervenções que o resultado arquitetônico é o resultado estrutural e vice-versa.


1. Largo Pedro Archanjo

Trata-se de um grande plano horizontal com dois balanços. Esse plano é constituído de vigas vagonadas que se apóiam em vigas principais que se projetam em balanços. Esse grande plano apóia-se em uma espécie de viga caixão, também formada por vigas secundárias do tipo vierendeel. A viga caixão apresenta grande resistência à torção, efeito que ocorre principalmente devido à solicitação de cargas de vento. A viga caixão apóia-se em duas torres rígidas, que dão todo o travamento do conjunto estrutural. Estas torres apóiam-se fora do perímetro do estacionamento.


2. Largo Quincas Berro d’Água

Neste caso a solução prevê a menor interferência dos apoios ao nível do piso. Para isso os pilares são projetados com ramificações. Com esse procedimento consegue-se ao nível da cobertura uma estrutura com mais apoios, ou seja, menores vãos, e, portanto, mais econômica. A estrutura de cobertura é formada por vigas principais em perfis de alma cheia em padrões comerciais, o mesmo ocorre para as vigas secundárias. Uma estrutura muito simples, mas marcante.

3. Largo Tereza Batista

Nesta proposta tem-se um misto das duas anteriores. Mantém-se os pilares ramificados, com o mesmo intuito de menor interferência no piso. Esses pilares sustentam diversos quadros de vigas principais em perfis de alma cheia. Esses quadros são preenchidos por grelhas de vigas vagonadas Também uma estrutura simples, como deve ser uma intervenção como esta. A torre tem duas funções: a de marco arquitetônico e coadjuvante na estabilização do conjunto. Todos os apoios da cobertura situam-se fora do perímetro do reservatório inferior.


Ficha técnica

Ficha técnica
Arquitetura: José Alves + Juliana Corradini
Engenharia: Yopanan Rebello
Equipe:
Ivan Souto
Eliana Barbosa
João Correa
Silvana Olivieri