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Concurso Ponte e Passarela em Blumenau
CONCURSO NACIONAL DE ARQUITETURA PONTE E PASSARELA EM BLUMENAU, 2011 – 3º Prêmio

LAÇOS VERMELHOS, AMARELOS E DUAS FITAS DE AÇO LARANJAS
PONTE E PASSARELA EM BLUMENAU

A bandeira de Blumenau é formada basicamente por listras vermelhas e brancas com uma esfera amarela ao centro. São as cores das fitas e laços com as quais as mulheres blumenauenses enfeitaram a bandeira imperial que os 56 voluntários de Blumenau levaram para a Guerra do Paraguai em 1865.

Fitas e laços servem para atar, ligar, conectar. As pontes também são como tiras, unindo diretamente dois pontos e com grande poder de transformar a geografia e a economia dos lugares onde são construídas.

Nossa ponte e passarela detêm esse aspecto simbólico da bandeira de Blumenau através da cor que escolhemos para pintar suas estruturas: o laranja, que é a soma do vermelho com o amarelo. Junto à vibração destas duas cores, o laranja agrega todas as características delas, transmitindo força, robustez, confiança, coragem, expansão, equilíbrio, segurança, otimismo, gentileza, alegria, cordialidade, espontaneidade, tolerância, orgulho, prosperidade, dinamismo e comunicação. Na concepção tanto da ponte quanto da passarela, adotamos estas características que também são intrínsecas de Blumenau e seu povo.

Além dos aspectos simbólicos acima, a ponte e a passarela foram moldadas como uma resposta sincera aos parâmetros urbanísticos e estruturais exigidos pelo Concurso, tais como: respeito às cotas de greide das cabeceiras; concordâncias com as vias de acesso; proibição de concepção estrutural prevendo pilares no leito do Rio Itajaí-Açu (o vão entre as cabeceiras deveria ser único); não utilização de longarinas com vigas em caixão (para evitar efeitos de flutuação); face inferior das superestruturas acima da cota de nível 11,00m e custos pré-estabelecidos para suas construções - R$25.000.000,00 para a ponte e R$7.000.000,00 para a passarela (com 10% a mais de tolerância para ambos os casos). Conjugando todos os requisitos técnicos estipulados com orçamento disponível e comparando-os com a magnitude dos empreendimentos, o maior desafio foi projetar a ponte e a passarela de forma que suas estruturas fossem econômicas com um design singular.

Adotamos um sistema estrutural que corresponde eficazmente aos parâmetros de implantação exigidos: a treliça. Para a ponte, cujos usos previam duas pistas de veículos, faixas de pedestres em ambos os lados e uma ciclovia, adotamos a treliça multiplanar vencendo um vão de 131m. Para a passarela, que seria tanto para pedestres como para ciclistas, adotamos também a treliça, mas desta vez única, posicionada no eixo do passadiço e vencendo um vão de 140m. Para que fosse viável a adoção de uma única treliça, que daria a leveza mais adequada aos usos, acoplamos aos seus banzos pares de vigas vagonadas, resultando em um sistema estrutural rígido, estável e elegante.

O uso do mesmo sistema estrutural para ambos os casos (a treliça), conferiu ao conjunto homogeneidade. A diferença de abordagem de seu uso deu ao todo heterogeneidade. Somando os dois, unidade.

Tanto na passarela quanto na ponte, deparamos-nos com um obstáculo a ser superado: as margens com alturas assimétricas (para a ponte, uma diferença de 4 metros entre elas e para a passarela, 5 metros). Independentemente desta condição, era necessário promover a acessibilidade irrestrita aos passadiços. No caso da passarela, resolvemos esta situação inserindo na cabeceira da margem esquerda, junto à Prainha, rampa de acessibilidade universal, dando ênfase à esta entrada. Na ponte, a característica topográfica do lugar nos forneceu caminhos interessantes quanto à interpretação e usufruto do entorno.

A experiência da cidade pressupõe nos movermos através dela. Movimentos de circulação e articulação são as chaves de como a usufruímos. Várias possibilidades relacionadas com diferentes perspectivas foram oferecidas aos pedestres e ciclistas durante a travessia da ponte, cuja estrutura permite uma variedade de pontos de entrada em alturas diferentes na margem esquerda do Rio Itajaí-Açu, que será dotada de um sistema unificado de parques e ciclovias. Portanto, a expressão estrutural da ponte foi acentuada pelo movimento das vias de conexão através do acoplamento de passadiços metálicos em balanço externamente à treliça multiplanar, conforme descrição abaixo:

Internamente às treliças temos o tabuleiro com inclinação de 3% para a circulação de veículos. Engatamos do lado leste da estrutura a via simples de pedestres, que vence o desnível entre as margens através de uma rampa que se inicia junto à Av. Beira-Rio, na entrada da ponte. Terminada a rampa, o passadiço segue em nível até atingir a margem esquerda do rio, junto à Rua Uruguay. Do lado oeste temos duas vias: uma ciclovia apegada à treliça e um passadiço de pedestres percorrendo paralelamente, formando uma bandeja metálica única. Antes do final da treliça, a via de pedestres se destaca da ciclovia, transformando-se em uma rampa que vence o desnível entre as margens. Já a ciclovia continua em nível até encontrar as outras duas ciclovias que percorrem a margem esquerda do Rio Itajaí-Açu e que farão parte do conjunto de lazer programado para este lado do rio. Conceitualmente, o caráter dinâmico da organização das faixas da ponte vincula-se com a vivacidade e energia das cidades.

Considerando todos os parâmetros exigidos pelo Concurso, nossa abordagem resultou em estruturas simples, carregadas de simbologia histórica, com um bom design e, sobretudo, exeqüíveis e econômicas.

O desenvolvimento de novas ligações e a idéia de atravessar o outro lado do rio é um exercício fascinante. Pontes e passarelas ligam comunidades, bairros, vizinhos, amigos, reduzem os tempos de viagem, nos mantém em forma promovendo o exercício físico e uma vida saudável. Para Blumenau, representará a possibilidade de se tornar uma cidade modelo para o desenvolvimento urbano sustentável e o resgate de sua memória: uma nova página retraçada com as cores de sua bandeira e do nascer de um novo dia.

PROJETO ESTRUTURAL - CONCEITO

As forças esculpem as estruturas para que lhe sirvam de caminhos, não quaisquer, mas aqueles que as conduzam suavemente ao solo, onde tranquilamente descansem, como guerreiros que sentem no corpo o alívio da missão cumprida.

A conhecida frase, atribuída a Mies Van der Rohe, de que menos é mais, está claramente evidenciada nas soluções adotadas para a passarela e ponte. Uma solução simples mas muito eficiente, ou melhor, a mais eficiente: a treliça. Nada de gongórico e espetaculoso, mas correto, econômico e eficaz.

PASSARELA

Para a passarela, onde as cargas, em princípio, são menores, optou-se pela singeleza de uma única treliça central para a estrutura principal. O desafio, neste caso, consiste em tornar a treliça única estável para as diversas situações a que fica submetida, como flambagem lateral do banzo superior, cargas horizontais devidas ao vento, pressão da água em situação de inundação e torção devida à excentricidade de cargas nas passarelas. Para absorver os esforços oriundos destas situações, optou-se pela criação de dois pares de vigas vagonadas locadas nos banzos superior e inferior da treliça longitudinal. Além da absorção dos esforços, a existência destas vigas vagonadas permite que se aumente a rigidez da estrutura, tornando-a mais confortável para o usuário. As estruturas secundárias dos passadiços são resolvidas com vigas de alma cheia, dispostas em uma grelha de vigas longitudinais e transversais. A cada montante, essa grelha é apoiada à treliça principal por vigas em balanço.

PONTE

Para a ponte, onde as cargas são maiores, optou-se também pela despretensão e eficiência da treliça: a treliça multiplanar. Como um tubo discretizado em barras, a treliça multiplanar formada por pares de treliças verticais e horizontais, apresenta-se como elemento capaz de responder eficientemente às solicitações a que uma edificação como essa estará sujeita ao longo de sua vida útil. Uma estrutura desse tipo apresenta respostas tanto às cargas verticais e horizontais, como também às torções devidas às cargas assimétricas. A grande vantagem dessa solução é apresentar pouca dificuldade na solução de situações em curva, como ocorre na entrada da ponte em um dos seus extremos onde, para adequar-se ao sistema viário existente sem necessidade de grandes alterações, o tubo abre-se recebendo de maneira singela as curvas das vias de acesso.

Como nas passarelas, as estruturas dos passadiços são resolvidas também de maneira simples, através de uma grelha de vigas que se apóiam nos montantes das treliças verticais.

Ficha técnica

Arquitetura: José Alves + Juliana Corradini

Engenharia: Yopanan Rebello

Orçamento: Nova Engenharia

Colaboradores: João Guilherme Viaro Correa e Manuela Costa Lima

Renderização e pós-produção: Davu3D